A beleza simplificada

Preconceitos com relação às feias e às gordas, a desconstrução da complexidade, reencontro de alma e corpo... Estes temas, aborda a professora Elena Muller numa reflexão bem pessoal a respeito da beleza.

Procuras alguma coisa? Ah, eu procuro! "Todos nós procuramos por alguma coisa", ouvi ainda agora na letra de uma música. E não foi a primeira vez! Aí me animo porque a "procura" atravessa a humanidade desde sempre. Ufa! Não estou tão só! Talvez perdida em dúvidas que me desacomodam porque concluo que há uma escolha grave a ser feita: somos nós guardiãs da simplicidade ou da complexidade da nossa beleza?
A minha vontade é parar por aqui porque sei que as minhas pobres escolhas estão profundamente aderidas pateticamente a um discurso pronto! Mas, não, não. Não desista! Não desistirei! Até Vinícius pede perdão!! Para as feias!! Brincadeirinha excludente, não?
Pois é, aí explodem os preconceitos nos pensamentos e bem aí, no perdão, eles, os preconceitos, saem impunes. Inquestionáveis. Pode me chamar de "feia"! Pode! A feia está de guardiã das brincadeiras com a sua feiúra. Brincadeiras e feiúra ingenuamente se protegem e são empurradas para o canto escuro da exclusão e do silêncio.

Complexidade e simplicidade se misturam numa rara beleza - Isto tudo parece confuso, complexo. Sim, é confuso, e muito. Estamos "acostumadas" a olhar a "forma", a simplicidade de tudo. Uma posição estática de olhar o mundo. No conto "Carregando a mulher através do rio", o jovem monge aprendeu que deveria evitar mulheres e esta ficou sendo sua realidade estática. Não compreendeu o contexto maior que fez Tanzan, seu mestre, carregar a moça em apuros para o outro lado do rio quando a pôs no chão e ela seguiu.
O jovem "carregou" aquela imagem como nós carregamos modelos estáticos e limitados.

Encaixamos nossas percepções nos velhos armazéns da nossa mente e rotulamos como "estranho", "esquisito", "não faz sentido", "gordo", "sarado", "tanquinho", "fora da realidade". Difícil é perceber que a realidade é movimento, dinamicidade, pluralidade.

O jovem monge só conseguia responder para uma realidade de forma estática e simples, sendo incapaz de expandir sua consciência na direção complexa e integradora. Assim como aquela ondinha tão sofredora ao lado das grandes ondas do mar. Oh, sou tão desprezível! Palavras sábias lhe disseram que seu sofrimento era porque não via sua forma original! Que uma onda era sua forma temporária e disse: "Você é água"! Ela entendeu e disse: "Então sou você, e você sou eu. Somos parte de um eu maior!"
Como a complexidade e a simplicidade se misturam numa rara beleza, aproveitemos para lembrar que, graças aos avanços da ciência e da técnica, o corpo não é mais algo proibido de ser manipulado, invadido, mexido lá por dentro e por fora!
Agora, sim, viva o controle dos nossos corpos pelo hedonismo, pela liberação sexual, pelo prazer. Chega de controle e repressão e sim ao "investimento" no controle/estimulação na direção do magro, bonito e bronzeado.
Seguindo na procura, encontro que a técnica adentra o corpo, células, genes. Um novo corpo potencializado pela técnica entendida no amplo sentido histórico, ético e moral. O culto ao corpo não privilegia ninguém. Atenção! Ele circula por toda a sociedade nas suas multifacetas e múltiplas conseqüências.

Sem querer apontar, mas apontando, os gordos têm sofrido muito. Coitado de você, gordo! Gorda! Vocês comem demais e, ainda pior, comem a parte dos outros. Use o chicote nas costas para abraçar a lógica da culpa que lhe é imposta, pois afinal você "só é gordo porque quer"!!

Pois é, a essa altura lembro os versos de Cecília Meireles, "Ou isto ou aquilo", e, como ela, também fico sem saber "se isto ou aquilo". Refiro-me às procuras e dúvidas, simplicidade, complexidade.
O caminho da dúvida já me atropelou, faz tempo, e não tem volta porque são tantos os discursos que disputam espaços pelo meu corpo e, na maioria das vezes, todos contraditórios para cuidar de mim. Ah, meu corpo! Um campo de batalha!
Aí vem Khalil Gibran e me conta: "Conheci um segundo nascimento, quando a minha alma e o meu corpo se amaram."
Sábias palavras que adentram o meu ser e o fortalecem na escolha da beleza do feminino que se eterniza no viver a complexidade de ser, querer e estar em flagrante desobediência, pois fortalecido.

ELENA MULLER
Docente Escola de Enfermagem UFRGS, Enfermeira Sanitarista, Mestre em Assistência de Enfermagem
muller.elena@gmail.com
NOVO HAMBURGO/RS

17 comentários:

likateadora disse...

Lindo ler algo tão verdadeiro, não é todo dia que tenho esta oportunidade!!

Beijos!

magdinha disse...

Elena, adorei o que li! Aliás já havia comentado o quanto gosto do teu jeito de escrever. Podes ter certeza que esta tua abordagem foi para nós, mulheres em especial, um presente. Fique com o pensamento de James Green:
"Todo o bem que eu puder fazer, toda a ternura que eu puder demonstrar a qualquer ser humano, que eu os faça agora, que não os adie ou esqueça, pois não passarei duas vezes pelo mesmo caminho."
Obrigada!

***Adri R.*** disse...

Parabenizo a Elena pela profunda reflexão referente à necessidade de enxergarmos o ser humano e não o seu exterior. Vivemos numa sociedade que super valoriza o esbelto, o bonito e o magro; esquecemos de olhar para dentro das pessoas. Está chegada a hora de revertermos esta lógica e ver a beleza simplificada.

EVINHA DOCINHO disse...

querida , muito bom o texto , deveria ser mas abordada e levada a serio , pois ´nos mulheres somos constatemente agredidas pela imposição do corpo perfeito , eu que o diga minhas formas são arredondadas ,e apesar de ser chamada de gordinha sexy tem sempre alguem dizendo , vc tem que emagrecar se nao nao fica bonita , ridiculo mas o o consumismo mudou os valores . um beijo !

Anônimo disse...

adorei o texto, super profundo e verdadeiro (como tu), realmente num mundo de tanto consumismo e imediatismo fica muito difícil encontrarmos pessoas verdadeiramente preocupados com o "eu", com valores reais,...

Aldo disse...

adorei o texto, muito profundo e reflexivo.
Acho que você é uma pessoa iluminada e como todos os iluminados tem um percepção diferente e mais ampla da vida.

Teve um tal de Manuel que escreveu isso:

"E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada."

Ele sabia o que tava falando também. é bom esse Manuel!

Bianca disse...

Professora Elena.

Suas palavras, profundas e serenas, irradiaram meu dia. As pessoas estão vinculadas a regras, a conceitos, pré-conceitos... e a verdadeira procura do "EU" interior parece não existir mais. Vejo que quando se segue um caminho “estipulado”, esta se deixando de lado os nossos princípios, a nossa vontade, o que realmente queremos ver e fazer. E, quando se chega a este ponto, os valores se perderam... bem como a felicidade.
Um abraço!
Bianca Bianchi

prima Eliane disse...

Maravilhoooooso... É emocionante quando nos deparamos com surpresas tão agradáveis ao decorrer da vida. Não que seja uma surpresa tua inteligência, mas... nossa amiga de infância... de repente...entre a sociedade literária. Muito bom. Parabéns pelas sábias palavras e pela coragem de adentrar em mais este mundo, o mundo das palavras e das significações. Um graaaande abração.
Prima Eliane.

gaucho disse...

Belas palavras professora.
Sempre nos surpreendendo e nos presentiando com seus pensamentos fortes e bem decididos.
Mas professoraaa, eu quero muuuito uma linda mulher do meu lado, ahsuahsu.

ana disse...

Elena, adorei! beijos ana

Anônimo disse...

Elena vc realmente está a frente de nosso tempo ... Parabéns pela construção do seu texto e nos brindar com a desconstrução das nossas dúvidas!!!
"(...)Afinal aprendemos que, perdemos tempo nos preocupando com fatos que muitas vezes só existem na nossa mente ... que amar não significa transferir aos outros a responsabilidade de fazer feliz e sim a nós a tarefa de apostar nos seus talentos e realizar os seus sonhos. (...)" (autor desconhecido) Abs, DTS

Anônimo disse...

Parabenizo a prof. Elena pelo seu texto tão sensível,de um assunto tão delicado.
Reforço,lembrando que a beleza é cultural,de época ,modismos e paradigmas.Somos seres únicos ,porque queremos estar dentro de um padrão?
Não posso deixar de citar, Saint Exuperry:"O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS.´SÓ SE VÊ BEM COM O CORAÇÃO."
Continue escrevendo Elena,com muito carinho, Marilia D. V.

Rita Carolina disse...

mãaae, gostei muito do texto. A mensagem que ele me mostrou foi que devemos nos aceitar como somos, não dar tanto valor ao estético. E quando conseguimos nos aceitar, criamos autoestima. Autoestima faz cuidarmos de nós mesmos nos sentindo felizes.
Demorei, mas vim! haha, beijooos

Anônimo disse...

Oi Elena!
Gostaria de parabenizá-la pelas belas palavras que escrevestes. Simplesmente é algo tão verdadeiros e bonito...
Algo que vêm da alma.
Refletir sobre nós é difícil....
Penso:

"AS FONTES FUNDAMENTAIS DE RIQUEZA NÃO SÃO OS RECURSOS NATURAIS, O TRABALHO FÍSICO OU OS MEIOS DE PRODUÇÃO...MAS SIM O CONHECIMENTO"

Porque nos seres humanos estamos sempre procurando nos superar? Porque não nos aceitamos como somos. Talvéz porque se pensarmos em parar estaremos aceitando a monotonia a estagnação, mas isso nós não suportamos.
Não estou dizendo que devemos parar de lutar, pelo contrário, lutar pelos objetivos é nobre porém, nunca devemos esquecer que o nosso principal oponete somos nós mesmos e finalmente quando soubermos "enterder e dominá-lo" estaremos prontos para conquistar/desfrutar e sermos reconhecidos pelos nossos brilhos.
Parabéns mais uma vez.
Bjs Valdirene Fraga

Valdirene disse...

Oi Elena!
Gostaria de parabenizá-la pelas belas palavras que escrevestes. Simplesmente é algo tão verdadeiros e bonito...
Algo que vêm da alma.
Refletir sobre nós é difícil....
Penso:

"AS FONTES FUNDAMENTAIS DE RIQUEZA NÃO SÃO OS RECURSOS NATURAIS, O TRABALHO FÍSICO OU OS MEIOS DE PRODUÇÃO...MAS SIM O CONHECIMENTO"

Porque nos seres humanos estamos sempre procurando nos superar? Porque não nos aceitamos como somos. Talvéz porque se pensarmos em parar estaremos aceitando a monotonia a estagnação, mas isso nós não suportamos.
Não estou dizendo que devemos parar de lutar, pelo contrário, lutar pelos objetivos é nobre porém, nunca devemos esquecer que o nosso principal oponete somos nós mesmos e finalmente quando soubermos "enterder e dominá-lo" estaremos prontos para conquistar/desfrutar e sermos reconhecidos pelos nossos brilhos.
Parabéns mais uma vez.
Bjs Valdirene Fraga

Elena disse...

Oi Valdirene! Que bela surpresa ler um comentário sobre o que escrevi passados já 3 meses. Adorei!! Suas palavras demonstram sua sensibilidade ao ler. Compactuo com voce quando ressalta o conhecimento como fonte de riqueza. Me preocupa que junto com o conhecimento anda o interesse e aí, prestemos atenção para os acontecimentos! Obrigada Valdirene! Muito legal! Um beijo da Elena

Jean Marcel disse...

Muito bom o texto, parabéns !

To brincando sogrinha :D

Bem, a beleza na verdade nao se baseia em algo concreto, e sim num padrão que nos é ensinado desde os primeiros segundos de vida.."olha como isso é lindo, olha como papai é bonito, olha como mamãe é bonita..." e tambem o inicio da autoestima elevada "olha que bebê bonito !"...
Acredito que a beleza verdadeira vem do que cada um pode mostrar de si, e a beleza estética, deveria servir SIM como um primeiro atrativo, mas nao o primordial numa relação.

A internet hoje em dia colabora muito neste aspecto. Se tu olha para uma mulher bonita na rua, vais te sentir atraido por ela, embora ela possa ser a pessoa mais incompativel do mundo contigo. No entanto, os meios de comunicação de hoje nos permitem conhecer a personalidade e o modo como cada um pensa, antes mesmo de ver o rosto de tal pessoa. Coisa que na minha opinião, nos ajuda a vencer preconceitos estéticos e até mesmo sociais.

Agora sim para complementar, meus parabés pelo texto, muito legal !

 
Série Temática Edição Absoluta/Beleza. COORDENAÇÃO E DESIGN: RICARDO MARTINS. Foto-topo: Jéssica Pulla, bellydancer, clicada por Toni Bassil.