Decadence avec elegance

O prazer de desfilar vem da sensação de poder de se tornar o sonho das pessoas, de ser colocada como padrão de tudo o que alguém gostaria de ser. A face escura de funcionar como essa espécie de deusa, entretanto envolve nudez, frio, constrangimentos, assédio, anorexia, bulimia, não ter tempo às vezes nem para tomar água, ter que trabalhar doente ou de TPM...
Esse é o mundo das modelos, essa dualidade de glamour e sacrifícios, céu e inferno, que ganha aqui um contundente retrato feito por Reka Fortes, ex-modelo que tem um metro de perna, corpo tatuado, já morou em três países diferentes, agora estuda Psicologia e Filosofia, e atua em produção de eventos.


Do alto de seus quase 1m e 80cm, a menina se equilibra à frente de 400 pessoas. Sua roupa desconfortável é contraditória à expressão de glamour que ela exala. Em passos de ângulo reto, desperta inveja e desejo no público. Profissão: modelo.
O estereótipo é bem definido e imposto por uma mídia que preza essa beleza falsa e superficial. Todas são altas, com uma magreza que beira doença e um brilho triste de glamour doentio no olhar. Desfilam tendências, jóias e sonhos. Desfilam o inusitado conceito atual do belo, fazendo disso sua vida, e materializando os desejos de um criador.
O mundo da moda é perfeito aos olhos de quem vê de fora. E para algumas pessoas que estão dentro também. Mulheres perfeitas, que com o tom da pele, o brilho dos cabelos e do olhar, têm a capacidade de mexer com a libido, com a cabeça e com os desejos alheios... Mulheres perfeitas que seduzem e intimidam.
Quem não gostaria de poder dizer que é referencial de beleza e moda, em um mundo onde a "embalagem" é tão mais importante que o conteúdo? A profissão em si parece ser bem mais glamourosa do que realmente é... e, sim, as meninas batem muita perna em passarela antes de alcançar - quando alcançam - fama, dinheiro e sucesso. O universo fashion é reluzente e, por vezes, ofusca quem dele usufrui. Modelos gostam de ser "modelo" para mulheres que nunca terão o padrão de beleza que é imposto.

E como elas se sentem? - O prazer que sentimos quando estamos desfilando é algo que não dá pra explicar, e mente quem diz que é uma coisa que com o tempo se acostuma. O frio na barriga é inevitável quando se tem um pouco de coração na profissão, a tremedeira, a sensação de poder, a sensação maravilhosa que se tem sabendo que se desperta inveja, que as pessoas te olham "te desejando", que você está linda, que é o que algumas dariam tudo para ser... Não existe comparação real para que as pessoas entendam o que sentimos lá de cima. É mais do que alcançar a profissão dos sonhos, é se tornar o sonho das pessoas, é ser colocada como padrão de tudo o que alguém gostaria de ser, é ser uma diva, um ídolo, uma deusa...

Horas de trabalho árduo. Sim, árduo, porque também se engana quem pensa que vida de modelo é apenas festa e badalação. Passar horas maquiada, fotografando, pousando com a coluna ereta, passando um ar de boneca, tudo isso cansa. Cansa não comer direito, cansa não ter tempo às vezes nem para tomar água, cansa ter que trabalhar doente ou de TPM... e nesse lado, a profissão não tem nada de bela.

Haja estrutura mental e psicológica para lidar com as adversas situações a que somos expostas: nudez, frio, constrangimentos, assédio - da imprensa ou dos homens que pensam que podem comprar as meninas - drogas, sexo. Um mundo muitas vezes distorcido por aqueles que buscam o sucesso rápido. A mídia que não perdoa erros, seja de conduta ou de vestimenta. O estilista que elege as suas preferidas. Vidas à mercê da boa vontade de agentes e agências. A moda, que ora valoriza cabelão, ora valoriza olhos claros, ora quer um tom dourado. As pessoas, que esperam que você dite seus próximos passos, que copiam o jeito que você se veste, anda e trata o namorado.
O fato de ter que estar sempre magra, de não poder se esbaldar em um churrasco de domingo - ou porque não tem domingo ou porque não pode arriscar ganhar dois quilos - e de não se deixar parecer doente com a magreza, tudo isso cansa e irrita. Assim como o risco permanente da anorexia e bulimia por uma beleza que é imposta. As pessoas - sejam produtores, jornalistas, família, fãs, agentes - que esperam de você mais do que você pode dar às vezes. Os limites que são ultrapassados quando se coloca a vida nas mãos de algo que muda a cada seis meses.

Queremos mulheres de verdade - É um mundo maravilhoso, quando bem direcionado. Lidar com o imaginário das pessoas instiga e atrai qualquer pessoa. Ser objeto de desejo, incentivar ainda mais a feminilidade alheia, ser respeitada, além de ter portas abertas a baladas, festas privadas, conhecer homens e mulheres maravilhosos e cheios de dinheiro, é tudo que algumas sempre quiseram. Uma vida que pode ter atalhos para a fama e dinheiro fácil, que todo mundo quer, de formas não tão dignas. Corpos que se vendem fácil. Almas que são corrompidas mais fácil ainda.
Poucas são as que chegam ao Nirvana da profissão, que escolhem seus trabalhos, e que tem o luxo de fazer o que preferem. A maioria se expõe a todo tipo de abuso durante a escalada à fama. Umas desistem no meio, seja por medo da fama ou cansaço da máscara. Algumas são naturalmente direcionadas ao fracasso, por que não tem estômago de continuar. Outras dão certo e se tornam exemplos a serem seguidos - ou esquecidos, pelo excesso de abusos.
Algumas se tornam rainhas e ícones e se mantêm lá por muito tempo. Algumas quando chegam lá, não sabem o porquê e despencam na decadência de quem alcançou tudo antes da hora. Algumas nem saem do lugar... por opção ou pressão. A maioria sofre e ama, porque ser reconhecida é bom, porque ter fama é bom, porque ir às festas é bom e depois de anos de sucesso e abusos, fazem trabalhos voluntários para limpar a imagem e desintoxicação para limpar o corpo.

O feminino essencial pelo qual são responsáveis os nossos modelos de beleza está longe de ser exposto, e com isso nós também ficamos órfãs de referenciais que mostrem além da beleza externa. Queremos mulheres de verdade e com conteúdo. Se forem bonitas, melhor, mas que tenham beleza por dentro e por fora, e que sejam mais do que só um exemplo fashion.

Sobre um salto 15, muitas pessoas não observam as lágrimas derramadas por anos de luta em busca de reconhecimento. E o sagrado, o ser mulher no meio de tantas mulheres, fica difícil e artificial. Cada vez mais meninas saem de casa em busca de algo que desconhecem e que acham que será fácil. Não sabem e não querem saber.
Ao longo de anos batendo perna e fazendo bolhas, acabamos sempre vendendo nossa alma, pelo menos em parte e um pouco, ao que achamos errado só porque podemos dar mais passo em direção ao sucesso. Chorar, pouco adianta, e arrepender-se é inviável.
Viva os exageros de um mundo que criticamos mas... não pensamos em viver longe.

REKA FORTES
Produtora de eventos
reka_fortes@yahoo.com
PORTO ALEGRE/RS


Fotos da autora

2 comentários:

Rekissima!!! disse...

UUIII Quanta honra!!!!
Abraços mil pra vcs!
Ta tudo lindo!
Bjo
Reka

Euzinha disse...

Todos os dias sinto orgulho de ser amiga dela!

 
Série Temática Edição Absoluta/Beleza. COORDENAÇÃO E DESIGN: RICARDO MARTINS. Foto-topo: Jéssica Pulla, bellydancer, clicada por Toni Bassil.